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Rappers de Londrina - Dejair Dionísio. Parte 04

Comentário:

Centro de Letras e Ciências Humanas Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas Projeto: Leitura, ritmo e poesia: Práticas de poéticas orais entre os rappers de Londrina (2003-2007). A Entrevista está na íntegra, e também encontra-se no CDHP –UEL – fita 417_01- 417_02-418-419. Entrevistado: Dejair Dionísio Entrevistador: Frederico Fernandes Local: Londrina – Pr Data: dias 24 e 26/09/2003

Transcrição:

Continuação da entrevista de história oral de vida com Dejair Dionísio pelo projeto “Rap leitor” 

Entrevistador Fred:  E eles recebem pra fazer as apresentações? Há algum tipo de remuneração?

Dejair: Depende do evento, né. Isso vai depender muito do evento, mas os eventos ligados às entidades, à prefeitura, por exemplo, ao governo do Estado, apresentações ligadas ao meio oficial que normalmente remuneram. Mas remuneram todo mundo na verdade, não é somente os rappers. Mas tem algumas festas, algumas promoções interessantes que acontecem que não rolam uma remuneração, rolam retorno social pra a comunidade, por exemplo, eles condicionam a participação deles a você levar um quilo de alimento, desde que não seja fubá e sal, que fubá e sal é complicado né. O pessoal até ri quando a gente fala isso, mas se você vai ajudar alguém você não pode levar sal, a pessoa não tem arroz, não tem feijão, você vai levar sal? Vai terminar de matar a pessoa. Fazer uma salmora. Rs...  Mas falando dos grupos, tem os novos, tem uma escola nova muito boa, que é o “SSZS”, “Artigo Periférico”, tem o “Verbo Definitivo”, “Ritmo de Vida”, “Sociedade Periférica”, tem o grupo “Consciência e Humildade”, muito bom, da Zona Norte também, o “PZN”, “Primeira Consciência”, o “RDR” é um grupo de Cambé, mas ele tá mais aqui em Londrina do que em Cambé, até pela proximidade que eles tão do Novo Bandeirantes, aí você atravessa ali uma avenida, você já ta no Jardim Sabará que é Londrina.

Entrevistador Fred:  Qual que é o de Sabará?

Dejair: É o RDR.

Entrevistador Fred:  RDR.

Dejair: Eles são de Cambé, aí tem “Julgamento Definitivo”, “Composição Verbal”, “Realidade Ativa”, “Sentença Criminal”, “DMD” que é um grupo só de meninos, que são três primos, é um irmão, com outro irmão que pegou mais um primo e fizeram um grupo. Então é Diego, Maicom e Daniel, por isso DMD né. É interessante a construção deles né. Tem os grupos aí que tem uma organização maior, que é o caso do “Estilo de rua” que eu já falei que tem composição gravada já; tem “Irmãos do Gueto” que já lançou um cd, ta lançando o 2º cd, o “OZP”, eles têm inclusive um estudio, tão... o MC do grupo que é o Caloi, ele tem um estúdio, então ele grava normalmente os grupos de Londrina. Ele participa de um grupo que é o “OZP” um grupo evangélico, tem ... é muito grupo.

Entrevistador Fred:  Agora a rapaziada começou (você viu que eu já acertei... rs) a rapaziada começou aparecer a partir que de época? Você falou 92 se eu não me engano, começaram...

Dejair: Aparecer, né.

Entrevistador Fred:  É, mas esses grupos todos aí que você listou, eles começaram a vir com mais intensidade...

Dejair: de 98, 99 pra cá. Mesmo porque a idade que a maioria deles estão é de 15, 20 anos. Então eles começaram realmente depois de 98, 99. Foi nessa época que estourou mesmo, estourou e surgiram muitos grupos.

Entrevistador Fred:  E tem, você tá apontando aqui um dado que é a participação de uma ligação do rap com igrejas evangélicas. Isso é muito comum ou é um caso específico de Londrina, ela é comum também...

Dejair: É comum no Brasil.

Entrevistador Fred:  No Brasil ?

Dejair: No Brasil é comum. Tem um campo muito grande, todas as igrejas hoje, tem evangélicos que gostam de rap, então, aí, ele fica num dilema, ele vira adepto da igreja, mas ele vai deixar de fazer uma coisa que ele sempre fez. Ele pega e modifica as letras dele, agrega valores cristãos à letra dele e leva a música dele pra dentro da igreja. Pra nós é ótimo, pra nós é ótimo porque a gente não leva só música, a gente tá levando na verdade uma cultura, por trás do rap existe uma cultura que é o hip hop. Então a gente leva essa coisa da conscientização do trabalho social pra dentro da igreja que também faz um trabalho social, então são duas organizações que se fundem com o mesmo objetivo, ou seja, acaba..., pode-se dizer que forma um crio também né.

Entrevistador Fred:  Sim, que vão de encontro...

Dejair: Elas buscam, elas têm o mesmo objetivo que é fazer um trabalho social, dá uma lição de vida melhor pras pessoas, então é interessante isso porque você segura o jovem dentro da igreja, porque pra gente tanto faz se o cara tá lá no terrero de macumba, se ele tá dentro da igreja evangélica, se ele tá na igreja católica, se ele é espírita, pra nós não é importante isso, cada um faz a sua, desde que você faça a coisa certa. Desde que você não prejudique ninguém. Porque dá pra você fazer qualquer coisa, porque essa coisa de você dizer, por exemplo, “ah, porque fulano lá é macumbeiro tal, ele pega e põe o nome do cara na boca do sapo”, ele põe se ele quiser, ele pode muito bem acender uma vela e fazer uma oração, participar de um culto pedindo uma benção pra pessoa, pedindo o bem pra pessoa, como alguém pode tá no culto também de uma igreja, independente de ser evangélica ou não, e de repente ele fazer mal uso do púlpito, que a gente tem casos e casos aí. Eu acho que não tem porque ficar citando mas que tem. Então, quem faz mal uso, normalmente é o ser humano, mas é legal essa coisa aí do rap evangélico. Eu não sou evangélico, mas eu acho legal, acho legal porque as letras também elas tem um conteúdo bem interessante. Mensagem.

Entrevistador Fred:  E rappers mulheres tem bastante?

Dejair: Tem pouco.

Entrevistador Fred:  Bem pouco?

Dejair: É meio clube do bolinha o negócio ainda, a coisa toda aí tá meio quartel, meio quartel, mas não é que a mulher não participe, é que a própria situação de vida da mulher faz com que ela esteja menos presente na maioria das coisas. E no hip hop não é diferente, mas tem algumas meninas despontando já o movimento, mas elas, elas têm assim o mesmo espaço que o homem tem dentro do movimento. Não existe, por exemplo, aquela coisa de você vai numa festa, você vê as meninas lá no canto e a rapaziada não respeita as meninas, isso aí não existe dentro do hip hop. Isso é a mesma lei da cadeia: mulher tem que ser respeitada. Tem que ser respeitada e ponto final. Você, por exemplo, não cresce o olho em cima da mulher do outro. Isso não existe dentro do movimento hip hop. O cara que faz isso aí, ele tá assinando realmente a sentença de morte dele com todas as letras, não é que ele vai ficar mal visto, além de ficar mal visto ele corre risco de vida. Então, ninguém fala isso, isso não é dito. Quando você, por exemplo, vem de uma cultura diferente, fala “poxa, achei legal a cultura hip hop, eu quero andar no meio, quero ver como é que é, quero estudar isso”, você vai perceber isso, vai perceber que essa coisa acontece. Eu posso, com a maior tranqüilidade, trazer 30 mano pra dentro da minha casa que eles não vão faltar em nenhum momento com respeito com minha filha, que é uma pré-adolescente, com a minha esposa. Eu não corro esse risco. Ao qual outras culturas musicais eu já teria uma certa dúvida em fazer isso. Mesmo porque dentro do movimento, dentro deste estilo que a gente trabalha né, de rap, dentro da cultura hip hop, normalmente as nossas festas não há muita bebida envolvida porque a maioria dos rappers, ou eles passaram por alguma situações muito complicadas com envolvimento com drogas, com bebidas, viram isso dentro da família, eles não querem isso pra eles mais. Eles querem distância desse tipo de coisa. Então, a tendência de você respeitar é maior porque você já conhece o estrago que pode fazer.

Entrevistador Fred:  Você acha que poderia dizer que até uma ideologia antidroga?

Dejair: Ela é, nós não pregamos o uso do álcool, não concordamos com o uso da maconha, não pregamos o uso de cocaína, do crack, do êxtase, bom, o êxtase nem chega né porque é uma droga cara. Não vai chegar tão cedo na periferia, mas o crack e a maconha que tá muito presente e principalmente a pinga, ninguém cita, mas a pinga ela tem um poder de desagregação familiar muito grande e violento. Os padrões da classe média alta seria cerveja, da classe média seria cerveja e da classe alta seria Uísque. Elas realmente desagregam as famílias. E a gente entende que a família, ela é o tripé de sucesso de qualquer jovem no país. O jovem que tá na cultura hip hop, ele precisa ter uma família. Porque a família é o eixo dele, é o eixo norteador dele.

Entrevistador Fred:  E a religião. Além, é claro, desses grupos que formam dentro da própria igreja evangélica, outras religiões também são, os rappers são praticantes de...

Dejair: Principalmente do candomblé.

Entrevistador Fred:  É?

Dejair: Principalmente do candomblé e da umbanda, até porque a maioria dos rappers são negros, né e é essas duas religiões, elas são religiões da cultura negra. Até importante frisar isso, porque algumas pessoas com pouca informação, elas tendem a achar que o candomblé ou a umbanda são coisas violentas e não são. Elas pertencem à cultural de um povo que foi massacrado no mundo todo, que ainda é muito massacrado, e pra massacrar um povo, a melhor forma de você acabar com ele é acabar com a cultura dele, com a língua e com a cultura dele. Foi isso que foi feito. Uma campanha violenta contra a religião, pregando assim pontos negativos e que algumas pessoas vincularam a religião e que não são pontos negativos, mas são na, verdade, opções de vida que cada um faz e aí acabam fazendo mal uso, que nem eu citei antes, o mal uso quem faz é o ser humano, porque a religião, todas elas perfeitas, se você seguir ao pé da letra ali. A religião muçulmana, que hoje é muito criticada no mundo todo, seria uma das mais perfeitas do mundo, porque pregar mais igualdade social do que eles pregam. Mas não se segue por interesse político, interesse de dominação, interesses pessoais principalmente, entra aí o livre arbítrio também, mas voltando a pergunta, basicamente candomblé, né.

Entrevistador Fred: É, eu queria perguntar pra você, queria agora que você falasse um pouco sobre o teu programa de rádio. Como é que surgiu a idéia, como você foi levado até a Rádio Universidade FM. Também, não sei, queria que você falasse se você já participou de outras rádios na cidade, em outros programas, queria que você falasse um pouco sobre isso.

Dejair: Bom, eu participei por uma semana de um programa, de um programa esportivo que era o “Bate-Bola”, isso foi na década, no início, no final dos anos 89, por aí, 90. Mas foi por uma semana só. Fui fazer um teste, um cara me viu, me viu na rua assim conversando com um amigo meu e falou: “meu, você não quer fazer um teste lá na rádio, tal”. É..., fiquei surpreso e falei “vou, vou sim.” Aí eu fui, ele falou “ó, nós temos programa de futebol,  então você vai fazer o seguinte: conforme for saindo os resultados, você vai *** e ficar anunciando, por exemplo, lá em Marília aconteceu, Londrina 2, Marília 1, suponhamos né. Lá no Amazonas terminou o campeonato local. Tal, tal.” Eu fazia isso né. No final dos jogos a gente tinha toda aquela explanagem do que aconteceu no mundo futebolístico, eu fazia isso. Mas foi uma semana só depois eu não fui mais porque eles queriam que eu trabalhasse 3 meses, sem ganho, só em forma de laboratório pra depois vê se eu serviria ou não. Mas naquela semana eu descobri que eles faziam isso com todo mundo. Ia dando um prazo de 3 meses, os cara diziam que o cara não servia, eu falei não vou ficar não. Perdendo tempo, era 1 vez só por semana, mas também não vou. Mas daí eu fazia Letras na UEL, quando a rádio foi inaugurada. Isso foi exatamente há 13 anos atrás, que esse ano ela completou 13 anos. E o Mário Bortoloto ele começou, ele apresentou um projeto, que era um projeto de um programa de blues na rádio, e eu conhecia o Mario e ele falou: “meu, pintou um espaço aí, você não tá afim de fazer um programa, você que gosta de mexer com funk, tal, porque você não apresenta um projeto lá”. Porque na época, eu fazia alguns concursos de funk, mas era uma coisa pessoal minha e de mais alguns amigos que a gente fazia. Tinha umas coisas que eu fazia sozinho e outras que eu fazia em grupo. Aí entre a coisa da crio. Você faz algumas coisas só, mas se une pra fazer outras em prol da mesma situação. Aí eu fui, apresentei o projeto e o primeiro piloto que a diretora me pediu já foi o primeiro programa, na mesma semana acho que foi ao ar. Aí o programa era segunda às 9, das 9 às 10 e com reprise no sábado das 5 às 6. Aí ele inverteu. Depois, ele passou a ser das 5 às 6:30 no programa mesmo, era ao vivo, e a reprise acontecia na segunda feira às 9 horas, das 21 às 21:30. Ficou três anos e meio no ar.

Entrevistador Fred:  Qual o nome desse primeiro programa?

Dejair: Era “Funk S.A.” Era em homenagem a um grupo de dança que teve na cidade. Falecido Dorival, do Ivo que tá vivo ainda, do próprio Nenê Black que dançou no grupo e de mais algum, do Dário que dançou nesse grupo também, eu não me lembro o nome dos outros integrantes, porque eu era muito menino ainda, mas eu admirava eles. Que os cara eram realmente muito bons. E agora esse novo projeto que a gente tá envolvido, que é o programa “Hip Hop & Cia”, ele foi fruto, na verdade, de uma dissidência que ocorreu dentro do movimento hip hop. No ano passado em Londrina, nós tivemos um crescimento muito grande nos últimos 3 anos na questão do hip hop, dentro dos 4 elementos mesmo e surgiu, uma pessoa conseguiu novamente um espaço na Rádio Universidade pra apresentar programa, isso foi o ano passado. Mas aí, rolou algumas coisas, talvez a maneira como ele viu o hip hop não serviu pro espaço público que é a rádio, que tem limitações legais, que algumas coisas você pode, outras você não pode, que é a questão da coisa pública, coisa pública ela tem limitações mesmo e não adianta a gente ficar, querer *** ou contestar. Você tem que seguir, até por ser colaborador também, você tem que entender que algumas limitações realmente tem que seguir. E isso não significa você abaixar a cabeça, significa aprender conviver dentro do sistema que tá normatizado, que todas as pessoas possam conviver bem. Aí surgiu essa demanda de ocupar novamente esse espaço, que houve vaga quando essa pessoa saiu e eu e mais 2 parceiros do movimento que é o Caloi e o Pirata que nesse momento já não estão mais juntos no programa e nós pegamos o espaço, apresentamos o projeto, começamos a utilizar esse espaço, num primeiro momento com 1h e meia e agora programa é de 1h.

Entrevistador Fred:  O programa atual “Hip Hop & Cia” ?

Dejair: Exato.

Entrevistador Fred:  Antes você tinha um outro nome pro programa?

Dejair: Era “Funk S.A.”. Mas na época, isso há 8, 9 anos atrás, era funk que tava na cena.

Entrevistador Fred:  Mas antes do “Hip Hop & Cia”, chegou a ter outro nome?

Dejair: Era “Estação Hip Hop”, mas não era eu que fazia, era essa outra pessoa, que foi o ano passado, ficou 1 ano o programa dele. Era uma outra pessoa.

Entrevistador Fred:  No caso, qual é a idéia básica do programa? É divulgar os grupos daqui de Londrina, ou vocês pegam grupos nacionais e até internacionais? Qual é a proposta principal do programa?

Dejair: O programa no início, ele tinha um espaço que era um espaço local, tocar as bandas locais, aí 3 ou 4 bandas. Depois tocava-se mais algumas coisas em termos nacionais. Tinha um espaço gringo. Espaço gringo, ... é complicado não tocar música gringa porque, com o movimento hip hop, os skatistas estão muito próximos, eles ouvem muita coisa gringa, e nós ouvimos também, mesmo porque o hip hop, o berço dele é Nova York. E a música lá, pra nós e uma música gringa. Não tem como você não tocar, porque você estaria fugindo da sua raiz. Mas hoje, especificamente, a gente entende que o programa tem que tocar música local. Por que que ele tem que tocar música local? A gente fez alguns contatos com pessoas que se envolvem neste tipo de trabalho no país, que são normalmente com rádios comunidades e não rádios educativos, como é nosso caso aqui, e nós percebemos que eles não tocam músicas de fora, eles tocam músicas locais. Por exemplo, Porto Alegre tem um programa, eles só tocam músicas que são do Rio Grande do Sul, muito raramente eles tocam 1 ou 2 músicas de quem é de fora, normalmente é do eixo de São Paulo. E nós entendemos que a coisa tem que ser por aí, porque daí você vai divulgar o trabalho dessa rapaziada que está começando, a molecada vai ouvir muito mais o programa, aí você vai conseguir ocupar realmente o espaço, devolver pra comunidade esse espaço que é da comunidade que você tá usando; que o voluntariado só tem lógica se for dessa forma, você fazer pra devolver pra comunidade, pra comunidade se servir disso. Então, o melhor meio que a gente tem de retornar pra comunidade é tocando os trabalhos dessa comunidade, porque daí você vai fazer com que essa molecada que tá nas favelas, principalmente, que é a grande maioria mesmo e que produz hoje o rap, eles percebam que vale a pena continuar com isso, que vale a pensa ele se ocupar, ocupar a mente dele em produzir uma letra, em produzir uma base legal, porque ele tem espaço garantido, que uma infinidade de pessoas que a gente não sabe quem são, e quais são essas pessoas, estarão ouvindo o trabalho deles. E aí a gente vai tá fazendo um trabalho social. Tanto isso a gente acredita que hoje o norte do programa é esse, é tocar música local.

Entrevistador Fred:  E eles acabam mandando as fitas demo pra vocês?

Dejair: Eles mandam CD. É interessante que a gente sempre acha periferia, ela não tá, não houve a inclusão digital. Na hora que você vê a produção que essa meninada faz, você fica assustado. O nível de construção, a criatividade que eles têm, por exemplo, trabalho artesanal, tem alguns grupos que a gente pode presenciar a gravação de algumas músicas deles. Então, vamos supor, um tem um aparelho de som tipo 3 em 1; aí tem o MD, entrada pra MD e entrada pra microfone. Eles pegam, põem o MD, pega o microfone, isso é na casa deles, não é estúdio nem nada, nem nada preparado, por exemplo, com casca de ovo ou bandeja de ovo, que normalmente ela cria um efeito acústico.

Entrevistador Fred:  Não deixa o som refletir...

Dejair: Isso, e eles cantam somente com aquele microfone 3, 4 assim, 1 segurando o microfone. Na hora que você ouve isso no MD, você fica assustado com a qualidade do som, porque você está pegando pessoas que tiveram uma alimentação muito ruim, ou seja, a voz dele provavelmente já foi prejudicada por essa alimentação ruim desde a infância, que já teve algum tipo de contato com bebida alcoólica ou com algum tipo de droga, que também afeta a voz. O diafragma dele já não funciona como deveria de funcionar pra dar aquela colocação vocal que deveria ter e outra situação, ele não conhece nenhuma técnica de gravação, ele nunca teve dentro de um estúdio montado pra ver como funciona, como é que deveria fazer esse trampo, e eles fazem cara, fica muito legal. Fica um trabalho assim interessante e os caras arruma um jeito de passar pra CD, pega o computador de alguém, todo mundo sabe fussar, se vira. Mas falta aquela coisa que é ter um equipamento que preste né, pra poder fazer um trabalho melhor. E uma das idéias aí hoje do movimento hip hop é montar um estúdio, pra que todo mundo utilize este estúdio que não seja só de um, pra você gravar gratuitamente a composição dos cara, porque, que o cara vai ter que levar? só o CD, se vê, ele quer o CD, ele leva o CD, porque o CD o custo é pequeno, isso dá pra ele arcar, mas não arcar com o custo da gravação, por exemplo, pra pagar R$50,00 numa base, vamos supor, e pagar mais R$70,00, R$80,00 só pra por a voz em cima da base, isso aí é inviável. O grupo que tem 14 músicas, o cara que mora na periferia que às vezes nem trabalha não trabalha, só vive de bico, ele vai gravar que jeito. Aí você vai tá incentivando o cara a fazer umas fita errada, e sair metendo a mão nos outros por aí né, não é esse objetivo. E, aí uns falam assim: “pô, mas o que vocês tão fazendo é assistencialismo”. É assistencialismo mesmo, só que é diferente. É um assistencialismo da periferia para periferia, ele não vem de baixo pra cima, é uma parceria. Então é um cara, é um periférico trabalhando com outro periférico, ou seja, idéia é avançar pro centro, não pra tomar o centro, mas pra agregar o centro e a periferia e transformar tudo numa coisa só.

Entrevistador Fred:  Certo! E você comentou agora que houve uma cisão do movimento hip hop em Londrina...

Dejair: Não, isso rolou no ano passado isso né. A coisa ficou muito centralizada numa pessoa só e essa pessoa até por sobrecarga de trabalho, ela acabou não conseguindo conduzir todos os projetos que ela tava envolvida, e alguns projetos eram projetos da comunidade hip hop, financiados com dinheiro público tal, então isso acabou impactando realmente. Mas isso acontece em todas as tribos, não é só no hip hop. Centralizou demais. Se a coisa fica muito focada numa pessoa só, a tendência é que essa coisa se desmantele.

Entrevistador Fred: A reunião aí dos diferentes crews, onde que é, qual o ponto de encontro?

Dejair: como é uma cultura de rua, a gente se reúne na rua, porque nós não temos estrutura financeira pra ter um espaço próprio. Então a nossa sede oficiosa é a Concha Acústica.

Entrevistador Fred:  A Concha Acústica.

Dejair: Mas hoje, por exemplo, tá chovendo né, se tivesse que rolar uma reunião hoje já não teria.

Entrevistador Fred:  Tem uma periodicidade dessas reuniões?

Dejair: Todos os sábados.

Entrevistador Fred:  Todos os sábados, que horas?

Dejair: Das 14 às 17 horas. E a rapaziada comparece, viu? Vai de bicicleta, vai a pé, vai de ônibus, é interessante isso, a responsabilidade, né?

Entrevistador Fred:  Isso de todos os pontos da cidade?

Dejair: De todos os pontos. Se você levar em conta que são todos periféricos e a reunião é no centro, todo mundo anda muito pra chegar até lá. No mínimo aí 7 Km, no mínimo, porque a maioria vai de bicicleta. Isso que é legal.

Entrevistador Fred:  Quem que começou a eleger, digamos assim, a Concha Acústica como esse ponto de encontro? Como que ela foi...

Dejair: Foi a questão da Secretaria da Cultura, por ser na frente da Secretaria de Cultura e como muitos trabalhos já alguns anos eles vêm sido..., eles são realizados em parceria com o município através da Secretaria de Cultura, então foi naturalmente né. Então você pra não conversar sobre algumas coisas dentro da Secretaria, você saía de lá e atravessava a rua, e sentava nos bancos da concha, acabou ficou a concha. Não foi proposital não, foi por uma questão de facilidade mesmo.

*Para execução correta do arquivo de aúdio, seu sistema deverá corresponder os requisitos necessários.