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Rappers de Londrina - Dejair Dionísio. Parte 01

Comentário:

Centro de Letras e Ciências Humanas Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas Projeto: Leitura, ritmo e poesia: Práticas de poéticas orais entre os rappers de Londrina (2003-2007). A Entrevista está na íntegra, e também encontra-se no CDHP –UEL – fita 417_01- 417_02-418-419. Entrevistado: Dejair Dionísio Entrevistador: Frederico Fernandes Local: Londrina – Pr Data: dias 24 e 26/09/2003

Transcrição:

Entrevistador Fred: Dia 24 de setembro de 2003, vamos iniciar a entrevista de história oral de vida com Dejair Dionísio pelo projeto “Rap leitor” e nós iniciamos esta entrevista pedindo para que o Dejair fale um pouco sobre as lembranças que ele tem mesmo da adolescência e como é que foi o processo dele de aproximação com o hip hop na adolescência.

Dejair: Tá, é... pra começar, acho que seria interessante falar sobre, as minhas influências musicais, né. Meu pai músico, autodidata, toca violão, a minha mãe era cantora de rádio, cantou inclusive em festivais que aconteceram na cidade na década de 60 e eu tive a oportunidade de ouvir dentro da minha casa Noel Rosa, ouvi muita coisa de Cartola até quando ele ainda não fazia esse sucesso que ele faz hoje, tenho ainda os primeiros discos de Martinho da Vila de Fafá de Belém, do próprio Cassiano, do Tim Maia, né, então eu tive essa possibilidade de ter na minha casa, então eu conhecia muito da música nacional e de principalmente músicos que estavam muito ligados à música negra porque é sempre importante a gente não esquecer a origem do hip hop que é que ele tem a raiz na música negra,  nos movimentos negros norte americanos. Então pra mim a entrada ela foi uma conseqüência das influências que eu tinha dentro de casa. De tanto ouvir lá Adoniran Barbosa, ouvia James Brown, automaticamente você começa a se interessar pela música e a própria cultura ela acaba entrando dentro da residência. De você usar o cabelo black power e saber porque tá usando, não só usar por modismo né, como muita gente faz aí, por exemplo, que embala aí em algumas danças de momento como esse pagode, como axé music, mas sem saber que lá no começo teve gente que tem todo um histórico de ideologia dessa linguagem musical. Então eu tive essa possibilidade né, a coisa toda começou realmente dentro de casa, dentro da minha família. Até porque nós tínhamos uma escola de samba que era a escola Unidos da Independência que ganhou vários carnavais na cidade de Londrina, algumas pessoas da família faziam parte do movimento negro na cidade também, então muitas informações chegavam pra gente através dos pais, dos tios, dos amigos, da família, dos primos mais velhos né que já tinham discos que a gente tinha a oportunidade de nas festas familiares poder ouvir essas coisas e a gente cresceu já conhecendo um pouco da cultura, sem entender, claro a ideologia, mas já conhecia a parte musical da cultura né. 

Entrevistador Fred: E aí, como é que foi esse contato com o movimento, onde ele se deu, se deu na comunidade, se deu no bairro específico, ou ele foi na escola, como é que foi isso daí

Dejair: Na comunidade. O movimento hip hop ele, basicamente, ele se dá dentro da comunidade pobre em todos os locais do mundo e aí hoje tá disseminado no mundo todo né, não tem um país aí que não tenha uma vertente ligada ao hip hop ou alguns segmentos do hip hop que seria o grafite, o rap né, que é composto aí pelo MC pelo Dj ou então o próprio bboy   que são os dançarinos ou bgirls.  No meu caso realmente foi na comunidade que nós tínhamos um grupo de dança, a gente ia numa discoteca na cidade chamada Gruta e tinha muito concurso de dança na época, naquela época, isso foi em meados de 70, não de 83, no início da década de 80. E nós tínhamos um grupo de..., formamos um grupo de dança né que a gente gostava de ouvir as músicas, dançava e a conseqüência natural foi formar um grupo de dança no nosso bairro né, ali alguns bairros próximos também, pegando várias pessoas e a gente passou a ter, nós passamos a pesquisar a música porque, quando você monta um grupo você tem que fazer um trabalho de pesquisa pra saber que tipo de roupa você vai usar, se tem haver com aquilo que você tá dançando, se o ritmo tá interessante, se você vai conseguir agregar passos de coreografia pra aquela música que você busca e às vezes que você monta também, que a gente já fazia algum tipo de colagem mesmo que precariamente, até pela própria condição financeira não permitiu o uso de equipamentos de gravação e de colagem e sintetizadores mas a gente já fazia algum tipo de colagem através de fita k7 mesmo, uma coisa bem rústica, mas que acabava dando um resultado bem interessante né. Então foi através da dança, a entrada mesmo no movimento foi através da dança. Então nós dançávamos um estilo chamado funk, que não é o funk do Rio de Janeiro, que aquilo lá não é, não tem nada a ver, tem a ver com o uma batida de miami, que é a miami bass, é uma outra vertente musical dos Estados Unidos e que só no Rio de Janeiro que ficou, e ... aí através do grupo de dança a coisa veio, veio o grafite, depois veio a questão de você já querer compor músicas né, que aí já veio uma influência direta de São Paulo através de Thaíde, através de Dj **, através do Cassiano, que a gente já ouvia muito Tim Maia, Tim Maia trouxe muita coisa já da fundação do hip hop em termos internacionais pro Brasil quando ele passou uma temporada nos Estados Unidos né, que foi de três ou quatro anos, durante a época da ditadura, ele sofreu muita influência, ele trouxe isso pro Brasil e a coisa toda pegou na comunidade negra. Então foi realmente através da música e da dança.

Entrevistador Fred: e isso aí foi no conjunto José Bonifácio e Silva que se deu.

Dejair: Não.

Entrevistador Fred: Qual bairro?

Dejair: Não, isso foi..., eu morava na Vila Recreio, a Vila Recreio é um dos bairros mais antigos da cidade e tem um lugar que nós chamávamos de buracão que é conhecido como centro social urbano hoje, mas nós chamamos de buracão porque ele é um na verdade, ele é um buraco como é o Zerão né, nossa cidade é cheia de altos e baixos né, então ele tem uma parte baixa e formou aquele, assim tem quadra de futebol, quadras de ... basquete, de salão, alguns centros de convivência e ele é conhecido popularmente naquela região como buracão. E.. , aí ensaiávamos lá naquela cancha depois que saía das aulas, a maioria estudava a noite porque já trabalhava, né, 13, 14, 15 anos, alguns pouco com uma idade um pouco mais avançada, mas no nosso grupo todo mundo trabalhava né, então a gente tinha um tempo pra ensaiar ou à noite ou final de semana. E é interessante lembrar que a polícia dava muita batida, porque era estranho onze horas da noite um bando de moleque lá sentado, dançando numa quadra, automaticamente a polícia queria saber o que tava fazendo. Não era uma violência que é hoje. Hoje até por conta aí da entrada da droga na cidade, principalmente do crack, a coisa toda se modificou totalmente, mas dava batida mais pra saber mesmo o que tava acontecendo, mas num, em nenhum momento a gente foi agredido tal, até passaram a ficar amigos da gente e ficavam ali fazendo ronda até pra proteger mesmo porque via que a gente tava fazendo um uma coisa legal né. Tava só dançando mesmo, se divertindo depois ia todo mundo embora, ia trabalhar no outro dia, ia estudar e depois ia dançar de novo. Então, foi assim o começo.

Entrevistador Fred: E vocês tinham algum apoio da prefeitura ou da secretaria de cultura nesse sentido, ou até mesmo da própria comunidade né, eles apoiavam a iniciativa de vocês? 

Dejair: Legal perguntar isso, porque em 88, 88 foi o ano que o “collorido” ganhou a eleição, Fernando Collor de Melo, foi 88 não, foi um pouco antes...

Entrevistador Fred: 89 foi a eleição...

Dejair: É, 89. Em 84 nós realizamos um concurso de dança já fora dessas danceterias, nós realizamos lá no centro social urbano. Foi 2 anos depois que ele foi fundado. Então nós tivemos todo apoio da direção do centro social urbano pra utilizar o espaço, utilizar os banheiros, e aí eles disponibilizaram, na época, automóveis pra gente, uma coisa inédita, nunca tinha acontecido isso na cidade ... e, aí alguns amigos que tinha, assim, equipamentos de som, que já trabalhavam com isso, né, profissionais da área, cederam equipamento pra gente, caixa de som, toda aparelhagem pra que a gente pudesse organizar e realizar este concurso. E nós tivemos apoio sim na época da secretaria de cultura. Muitas pessoas hoje, a questão da memória cultural do país ela é muito curta né, mas muitas pessoas hoje dizem que somente um governo aí que deu uma abertura muito grande pra cultura, principalmente a cultura de periferia, mas não é verdade isso. Em todas as gestões dos prefeitos que passaram de 80, do meio da década de 80 até hoje nós sempre tivemos apoio por parte da secretaria e até da própria prefeitura. Principalmente da universidade. A universidade sempre teve muito aberta assim e tudo o que a gente pediu, em termos de cartazes, de divulgação, de faixa, de equipamento de som, de tablado principalmente, que é uma coisa muito complicada de você conseguir, que é a locação, além de ser caro, envolve a questão do transporte e ter gente pra transportar. A universidade estadual de Londrina sempre, através dos seus setores, ela sempre disponibilizou todas as coisas que a gente pedia. Nunca houve assim um não, em nenhum momento.

Entrevistador Fred: E, você falou aí que vocês articularam um concurso de dança, como é que era, por exemplo, os outros bairros também tinham isso, tinham seus grupos de dança, vocês competiam entre si, tinham alguma até rivalidade no campo artístico?

Dejair: Tinha. Londrina chegou a ter uma época mais de 60 grupos de dança, só em Londrina, fora os da região que também vinham pros concursos. E depois desse primeiro concurso, a gente viu que dava pra fazer, e outra, o legal é que todo mundo apoiou, inclusive, na época só tinha Folha de Londrina, o jornal de grande circulação era só a Folha de Londrina. Então eles cederam assim uma página inteira né pra falar do concurso. No dia do evento, foram lá fotografaram. Depois na segunda foi, na segunda não tinha jornal, foi na terça feira, foi matéria de capa, foi assim muito legal. Então tinha muitos grupos sim. Tinha um grupo muito antigo na cidade que é o “Funkstein”, tinha o nosso grupo que era o “Star Funk Dance”, tinha “Demônios do Funk”, tinha assim umas coisa bem legais. Mas tinha muita menina que participava também. Normalmente quando se fala de cultura de periferia, as pessoas não incluem as mulheres, mas elas participavam muito. Não só torcendo, mas tinham grupos organizados e davam muito trabalho. Era complicado ganhar das meninas. 

Entrevistador Fred: Dejair, vamos mudar um pouco aqui a tônica, queria que você falasse um pouco da tua experiência na escola, né. Como é que era, a escola aceitava esse espaço de dança, incentivava, ou havia uma certa discriminação? Como é que era na escola isso daí?

Dejair: Não, aí, é... Eu vou falar do meu ponto de vista, do meu ponto de vista da minha experiência pessoal, não na experiência da maioria dos hip hoppers do país, que é bem diferente da minha. Eu tive um legado interessante que, pelo fato do meu pai gostar de música, minha mãe também gostar de música e minha família ter uma estrutura assim, principalmente no lado musical e no lado do esporte, ter dado muita coisa pra gente né, pra mim, pros meus filhos, primos, de uma forma geral, eu não tive essas dificuldades que outros tiveram, porque a maioria das pessoas que fazem parte dessa cultura, que militam nessa cultura, tiveram uma infância muito difícil, né. Falta de alimento, pai drogado, pai bêbado, mãe presidiária ou ex-presidiária, às vezes não tinha a presença do pai ou da mãe, ou não tinha de nenhum dos dois. Então viveram realidades bem diferentes da que eu vivi, né. E eu posso agradecer a Deus, aos orixás, sei lá, as forças aí do universo por ter tido essas facilidades. Então minhas experiências na escola, por exemplo, eu nunca tive nenhum problema de repetência porque eu tinha um acompanhamento por parte do meu pai, minha mãe, a presença física deles né. (pausa na fita)
 
Entrevistador Fred: você ta falando aí da escola, né, que você não teve nenhum problema de repetência...

Dejair: É importante colocar isso, porque muitas pessoas falam que você não consegue chegar, calcar determinados cargos porque você é pobre, porque você é preto, porque você é discriminado... e isso realmente dificulta. Isso existe, todo mundo sabe, a gente não, é perda de tempo continuar discutindo isso, porque todo mundo sabe disso. Algumas pessoas se negam a aceitar a situação, mas ela existe. Mas isso não quer dizer que você tenha que se acomodar com a situação, né. Você tem que realmente atropelar as dificuldades, passar por cima delas e continuar olhando sempre pra frente, esquecer o que ficou pra trás. Mas, a questão da escola que eu tava dizendo, eu estudei num colégio chamado Artur Thomas, minha primeira escola. Do tempo que a gente ainda ajoelhava no milho, no pé da bandeira lá, que se fazia uma besteira dentro da sala, discutia com alguém ou não prestava atenção tomava uma reguada na mão, os menino de hoje não sabe o que é que isso, mas não era fácil não. Ajoelhado no milho ali uma hora debaixo do sol, e o pai apoiava a situação ainda, né. Mas, assim ... eu não tenho ressentimento quanto a isso porque era com todo mundo, não só com um nem com dois, qualquer um que fizesse alguma besteira na escola tava suscetível a isso. Aí depois eu estudei numa escola chamada Tiradentes. Tiradentes, essa escola já fica na área central da cidade né e é uma escola pequenininha, uma escola municipal. Estudei 3 anos lá e depois eu fui pro Marcelino Champagnat, uma escola estadual grande na cidade. Aí, o legal nessa escola é que eu entrei na banda marcial e por entrar na banda marcial e que já gostava de ouvir música e gostar, uma coisa casou com a outra né. Aí depois virei até orador de turma, tal, virei orador do colégio, eventos assim normalmente eu que ia lá recitar poesias, ainda tinha essas coisa na escola, né. Essas coisas importantes que era você estudar Camões, estudar Machado de Assis, profundamente. Ficar o ano inteiro estudando Literatura Portuguesa. E...

Entrevistador Fred: Como é que era, por exemplo, esta questão da Literatura, você gostava, porque você já tinha uma experiência musical muito forte na tua casa pelo que você ta falando. E na escola, Literatura, como é que era? Como você via Literatura? Você via Literatura como um texto completamente distante da tua vida, estudava só pra tirar nota, qual era o texto que realmente você gostava de ler, curtia ler, como é que era?

Dejair: Eu gostava e gosto até hoje. Tanto é que acabei fazendo Letras por influência da própria Literatura, né. Eu sempre gostei muito de ler, de ler Literatura Grega, ler os grandes escritores, os principais pensadores do mundo, sempre tive muito interesse por isso né. E isso, depois, eu não entendia a importância disso lá com 14, 15 anos não tinha ainda a noção de quanto isso ia contribuir pra mim como pessoa, como ser humano. Mas, depois eu percebi como é importante a Literatura, como é importante essa coisa de você procurar conhecer as letras, procurar conhecer e ler, se informar realmente profundamente sobre isso, né. Só que tem um detalhe, né, naquela época a gente tinha professores que incentivava a leitura. Então eles sorteavam livros, faziam peças teatrais, faziam gincanas, e tudo isso chama a atenção, tudo isso faz com que você goste da matéria. Você gostando da matéria, você faz com prazer, fazendo com prazer você devora livro, você vai devorar livro mesmo, é uma coisa automática isso né. Então essa coisa de ver sempre meus pais cantando muito, né, eles cantavam muitas coisas que eu não entendia porque as coisas que eles cantavam eram construções difíceis, né, Chico Buarque, Manoel Rosa, você tem que ter o mínino de conhecimento literário e de história pra você entender o que eles tão cantando. Então isso fazia com que a gente procurasse se informar um pouco mais. Eu sempre gostei de ler pra saber o que que é que eu tava lendo. Então buscava uma referência aqui uma outra ali, eu ficava ampliando um pouco mais o conhecimento. E a própria questão da banda marcial me obrigou a isso também. A gente tinha que estudar um pouco de música e a história da música e você, uma coisa complementava a outra, isso ajudou muito no, principalmente quando a gente montou mesmo um grupo de dança que foi um pouco mais pra frente, não foi ainda nessa época. 

Entrevistador Fred: E, por exemplo, as atividades da comunidade que eram a dança, o funk de uma certa maneira; você tinha as atividades culturais na escola, que eram a banda marcial, enfim, que a escola aquela época pelo que você ta me dizendo, era uma época ainda do regime militar no Brasil, tinha o culto aos civis, a bandeira e tudo mais. A escola em algum momento ela apoiava essas atividades culturais que eram praticadas fora dela, ela via isso com bons olhos, como é que era essa relação?

Dejair: Ela não se incomodava porque o que incomodava a escola na época era o rock. Não havia ainda, o termo hip hop ele não havia chegado na cidade de Londrina como ele é contextualizado hoje. Todo mundo sabia que tinha lá o James Brown, tinha o Toni Tornado que era cantor, pouca gente sabe disso, né, mas ele nem sempre foi ator, ele foi cantor pra depois virar ator da rede Globo, tinha o Cassiano, Tim Maia, Sandra de Sá já tava começando a despontar também nessa época, né, foi a época que ela estourou mesmo, foi no meio da década de 80, então as pessoas ouviam, não havia ainda uma ideologia envolvida com tudo isso. Lá fora já havia, isso já acontecia lá fora, nos Estados Unidos há uns 10, 12 anos, mas aqui no Brasil, aqui em Londrina, né, não no Brasil, mas em Londrina a coisa não havia chegado de forma de ideologia, de luta, de cobrança por melhores salários, por uma situação de vida melhor de disposição de você ter, por exemplo, rede de esgoto, de você ter salários iguais pra todo mundo, aquela coisa da ideologia mesmo do hip hop hoje. Então a escola não se incomodava, ela achava legal porque ela via isso como diversão. Na verdade, era diversão, mas já havia uma incorporação porque, nessa época, alguns grupos nacionais começaram a surgir e eles começavam a criticar a situação da periferia, de morar na favela, de não ter escola, de, por exemplo, não ter acesso a cargos públicos porque ele tinha a escola, mas a escola que ele tinha normalmente não era uma escola tão boa porque a escola da periferia ela já tava em decadência, ela não tava naquele auge de 60 até o final dos anos 70 que ela era considerado o ... (qual seria o termo) referência, né, referência na educação. A escola particular não era modelo de escola como é hoje, era escola pública, mas ela já tava entrando no período de decadência porque o próprio militarismo no país entrou num período de decadência. Então aquela coisa, por exemplo, de doar ouro pro Brasil, do sumiço dos diamantes **, tudo isso começou a chegar pra comunidade, e a comunidade começou a ver isso como uma verdadeira sacanagem mesmo né, porque você tava contribuindo pro país, mas, que país que você ta contribuindo, pro país dos outros, porque você não tinha retorno disso. Então era um Brasil diferente e começou a surgir também naquela época as lutas sindicais né, o próprio surgimento do PT, o PCdoB voltando da ... pera aí, vamos voltar um pouquinho, PCB anos 60, depois foi ** em dois partidos, ficou ...

Entrevistador Fred: Bipartidarismo...

Dejair: É, ficou naquela coisa de bipartidarismo, depois foi permitido novamente a formação.

Entrevistador Fred: década de 80

Dejair: É, tô tentando lembrar aqui que já faz um tempo. Então tudo isso a comunidade já começava a ter informação disso, aí começou a contextualização realmente da ideologia do... da junção do movimento hip hop; e o funk começou a entrar em decadência, começou a surgir o termo rap, que é cantar em cima de uma batida, você falar, que é ritmo e poesia, você fazer uma poesia acelerada em cima de determinado ritmo que também tava um pouco acelerado. E isso que se cantava não era pra animar festa, por exemplo, você cantava pra fazer denúncia social. E aí começou a incomodar, começou a incomodar no final da década de 80. Até o meio da década de 80 não incomodava as escolas, as escolas davam um apoio, que era música, então... a meninada tá se divertindo, deixa eles lá. Diferente hoje, né, que se diverte, mas ouve, entende e vai e começa a cobrar os direitos, né, sociais.

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