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O peixe

Comentário:

Narrativa pertencente ao acervo do projeto IFNOPAP (O Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense).

Transcrição:

O peixe

    [— Nely, cadê aquela foto tua?] 
    (— Já.)
— De verdade.  Olha, eu não quero zoada se não eu vou me esquecer, sou danada pra me esquecer. 
    Era uma vez um casal pobre, pobre; ele... tinha dias que não tinha nada pra comer. Quando foi um belo dia, ele disse:
    — Hoje eu vou pescar. 
    Saiu pra pescar. Chegando à beira do rio, ele pega um peixe.  Aí, o peixe fala pra ele:
    — Não me mata! não me mata! que quando tu chegar na tua casa tu tem tudo o que tu queres.
    Aí, ele disse:
    Mas eu nunca vi peixe falar!
    — Não! não me mata, não me mata, me solta! Quando tu chegar na tua casa tem tudo o que você quiser. 
    — De verdade?
    — Sim.
    — Então está bom.
    Soltou, o peixe foi embora. Está bom. Quando ele chegou na casa dele, tinha tudo o que ele queria mesmo.
    (— E a mulher dele como é que estava?) 
    — A mulher dele estava linda! Não tinha mais guardanapo, nem nada costurando; calça velha, nada; estava toda bonitona ali. Não faltava mais coisa nenhuma na casa dele; já era outra casa. Ih! quase ele não achava nem a casa, só conheceu porque a mulher chamou:
— Vem cá, marido. Nós somos... ganhamos uma riqueza, não sei o quê. Olha como eu estou toda bonita. 
    Está bom. Aí passou, passou o tempo. Quando foi um belo dia, ele disse, não, ela disse assim:
— Olha, vai lá no rio, que eu já estou enjoada de ser rainha. Vai lá, na beira do rio, chama teu peixe e diz pra ele que eu não quero mais ser rainha, eu quero ser uma deusa, que deusa não tem, rainha tem muita, deusa, não tem.
    — Mulher! tu é louca, mulher?! Não faça isso! Não está faltando nada; o peixe falou comigo de verdade!  não está faltando nada pra nós. O que que você quer?! Você já viu ter mais de um Deus? Só existe um.
    — Mas não é nada, diz pra ele que eu quero ser uma deusa.
    Aí, ele vai pra lá, né. Está certo?  Aí, ele chega lá na beira do rio...
— Ei! meu peixe.
    Nada; o peixe nada de aparecer.
— Ei! meu peixe.
    Nada de peixe.
— Meu peixe.
    Aí, ele vinha rebanando [muito] brabo.  Aí... chega espirrava água na cara dele.
— O que é?
    Ele disse:
    — Olha, você desculpa eu falar assim, mas a minha mulher diz que não quer mais ser rainha, ela quer ser uma deusa porque rainha tem muito.
    Ele disse:
    — E você? Seu... Você não está vendo que Deus só existe um! Como é que essa mulher quer ser uma deusa! Até...
    Aí ele saiu que foi [cumbera]. 
    — Será que está certo?
    (— Está.)
    Aí, terminou a história. 

*Para execução correta do arquivo de aúdio, seu sistema deverá corresponder os requisitos necessários.